A Turma

19/03/2009

Hoje faz cinco anos da minha colação de grau em Direito. Turma 2003.2. Reencontrei a Zeine Amaro no Fórum e ela me deu uma cópia das filmagens da Aula da Saudade.

Meu Deus, éramos tão jovens! Tão perfeitos, imortais e sonhadores. Tão inocentes das verdades do mundo, a cabeça plena de ideais e os bolsos cheios de nada. Éramos o futuro. Hoje somos o presente. A ponta de lança da elite profissional. Os “bam-bam-bans”. É interessante perceber que a passagem do tempo é diametralmente oposta a nossa existência, já que eu percebo que amanhã seremos o passado.

Por quê? Porque eu vejo a minha face risonha de há cinco anos no vídeo e, refletido no monitor, na penumbra do meu escritório, meu rosto grave de agora. Da mesma forma que vejo os neófitos formandos de agora com todo o frescor de sua juventude estampada no peito. A mesma ingenuidade que tínhamos.

Houve algo que passou nestes anos que eu não entendi. Ou não percebi. Eu era mais leve naquele tempo. E caminhava como se não houvesse pressa. Percebam meu deslize, agora: eu disse “como se não houvesse pressa”. E isso não existe. Fomos nós que criamos a pressa. Nós nos obrigamos a uma maratona de compromissos dentro de uma agenda lotada, Deus sabe lá por quê.

O mundo, a vida, o trabalho, nossas ocupações e decisões fazem uma cirurgia bárbara em nossas faces. Antes éramos uma Turma. Hoje somos individualidades de brilhos diversos que quando se encontram falam no passado, quando possível, quando dá tempo, no intervalo entre um “despacho” e outro com os juízes dos fóruns da vida.

Hoje eu não consigo descansar. Nessa noite de 05 de março de 2009, eu não consigo relaxar como dantes fazia. Era só chegar a casa, assistir um filme, ler um livro, jogar um pouco no computador e, logo, logo, vagava pelo reino de Morfeu.

Hoje permito que minhas obrigações me dominem mesmo fora do horário de expediente. Hoje autorizo que minhas preocupações como profissional, no interesse de meus clientes, suplantem as preocupações de minha vida pessoal.

Então me pergunto se a juventude é realmente a passagem do tempo ou se é o acúmulo de deveres e as conseqüências do peso das responsabilidades sobre nossos ombros.

Mais assustador foi perceber, quando deixamos o “ninho” da universidade, que o mundo não era tão atemorizante quanto parecia e que a vitória veio bem mais fácil do que imaginávamos. Mais vergonhoso foi perceber que nos tornamos tudo aquilo que juramos não nos tornar, quando ainda tínhamos sonhos.

O que havia de mais sublime e profundo em nós se perdeu, como um sonho que chega a fim. Eu não recordo mais o que queria quando saí da faculdade, porque agora aqueles ideais estão tão distantes quanto os resquícios de minha infância.

Hoje temos contas. Que pagamos. E trabalhamos para ter mais contas. Que pagaremos. Nossa vida se resumirá nessas contas. No que compramos e pagamos. Então fico triste, mortalmente triste, porque meus sonhos estão aqui na tela deste vídeo que minhas mãos tocam, mas distam meia década de agora, perdidos no abismo do tempo e da vida.

Mas saiba: agradeço a Deus por cada segundo desses cinco anos. Carrego no peito cada momento, bom ou ruim, as pessoas que conheci, as coisas que aprendi e o quanto eu cresci. Foram os anos mais fantásticos da minha vida, responsáveis por tornar o rapaz que vejo neste vídeo, no homem de olhar profundo e ar grave que vejo hoje no espelho.

 

 

Allan Xenofonte de Brito

05 de março de 2009.

- É o quê? – perguntaram em uníssono de maneiras diferentes, seja lá o que isso signifique.

 

- A busca de Wolverine pela Máquina das Puras Possibilidades, também chamada de Pedra Filosofal, ou Pedra do Retorno; o lançamento da Cruzada; os últimos acontecimentos… coisas que não compreendemos, mas que finalmente percebi: Vocês são Changelings.

 

- É inacreditável. – disse Frank.

 

- Quando você percebeu? – perguntou João.

 

- No Covil. A forma como agiram… mais que uma equipe, melhor do que se tivessem ensaiado exaustivamente. E breves lampejos de uma profunda genialidade e absoluta perfeição. Mas, é claro, há algo bloqueando a integralidade de seus poderes.

 

- Quer dizer que vamos ter que retirar os Bloqueadores?

 

- Exato.

 

- E quem vai fazer isso? – perguntou Martelo.

 

- Tem um médico amigo meu. Totalmente de confiança. É meio estranho, sabem? De qualquer forma eu acho que ele também é alienígena, mas de outro planeta, ah, ah. É só marcar o dia da retirada. – Eu disse. Foi um comentário estúpido, eu sei.

 

Depois das operações, quando todos os convalescentes cuidavam de seus “documentos”:

 

- Então a Máquina das Puras Possibilidades é um bote salva-vidas para os Trocados. – falou João 8 para si mesmo, depois de conferir se o médico havia feito o ponto direito.

 

- O que me pergunto é: uma vez com a Máquina, o que faremos? Isto é, vamos retornar, mesmo? – perguntei.

 

- É claro. Não somos daqui e creio que não viemos para ficar. – disse Wolverine.

 

- Não acredito que isso passe com tanta naturalidade pela sua cabeça! Eu ainda estou estático. – disse Martel.

 

- E eu, extático! Em êxtase. – riu Frank.

 

- Você não pode ficar pensando assim, Martel. – disse João 8.

 

- É mesmo, veja, mantenha em mente a Lembrança das Estrelas. – confirmou Frank.

 

- Porque não nos disse nada quando voltou? – perguntou Martelo.

 

- Eu também não sabia de nada. De qualquer forma, cuidado. Agora vocês sabem que são alienígenas.

 

Nisso João 8 disse:

 

- Eu assisti o seriado Roswell, sei das implicâncias.

 

- É. – disse Martelo – Não quer dizer que agora somos os bandidos.

 

- De qualquer forma, fico pensando que, às vezes, nós nos comportamos como o Coringa no Batman, The Dark Knight: sempre esperando o pior das pessoas. Que elas se explodam ou matem gente rica. – filosofei.

 

- Mudando de assunto. – Frank se intrometeu no momento filosófico dos outros. – Eu fico aqui pensando, bicho: e se alguém perde os ovos, perde também o Bloqueador?

 

- É, eu acho que sim. – respondi.

 

- Caramba! Será que ninguém nunca perdeu?

 

- Ô, Frank, você já viu alguém que tenha perdido os ovos por aí? – perguntou Wolverine. – Isso não acontece com essa freqüência toda que você imagina.

 

Depois de uns instantes de silêncio, Junior Wolverine pegou uma barra de aço num canto da rua e o envergou como se fosse um arame para estender roupa. Depois cruzou os braços e disse:

 

-  Caralho, véi! E agora, o que a gente faz com super-poderes?

 

 

Continua na próxima semana…